trazia a noite entulhada no coração. da raiz das mãos ao cérebro era um compasso de arquitectónicos casulos onde fermentava sentimentos novos. julgo às vezes tê-la visto mais a leste, onde as mulheres costumam ir parir dores; mas não posso estar certo. um dia destes hei-de contar-lhe como a minha rua foi parar à dela ou como, dobrando a esquina pelo lado de fora, consegui alcançar a alçada da porta onde costura as extremidades dos corpos, tantos, que se quebram quando há despedidas. a primeira vez que encontrei a felicidade foi no seu colo, com a cabeça encostada ao seu ventre, a sentir tocar-me na face as recordações que a comiam. agora acho que me perdi ou ela se perdeu em mim, porque há decerto em mim um buraco negro onde se perdem as poucas pessoas que aprendo a amar.
por: mar
outros há que ousam segredar-me o fim do horizonte, como se lhes orvalhasse no coração tamanha infelicidade, que as árvores então inclinassem as copas em direcção à raíz. outros há que guardam histórias tristes no bolso das mãos, para me contarem quando estiver mais feliz. julgo ter perdido o jeito de pronunciar o teu nome sempre que estás longe, estás tantas vezes longe que as próprias vogais comeram as consoantes e na dissonância do teu nome, quando gritado pelo meu, levantam-se pássaros migratórios, desses que andam de coração em coração a debicar migalhas de amor. e o que de ti guardo vai secando, como se as estações do corpo passassem na pressa dos dias de inverno e as flores, que voltadas para a chuva entristecem, começassem lentamente a morrer. queria que as estações não me pesassem tanto na pele, para me ser possível guardar-te nas primaveras.
por: mar
julgo hoje ser, na perpendicular deste texto, a linha ténue que separa a relidade da ilusão. no trecho breve deste início de noite, escrevo as tuas mãos ausentes, de fora da baínha dos sonhos, à espera que eu as toque ou que, num qualquer modo que desconheço, caia entre as rugas delas e me afogue nas lágrimas retidas à epiderme da pele. por estares morto é que te ouço, a bater os dentes sobre o frio pausado da noite que nos chama, é por estares morto que me ouves, no não falar coisa nenhuma que me embarga. se hoje pudesse matar-me, morrer deveras, esticar os pulsos e cortá-los ao som da angústia, deixar a vida fechar-me a porta de todos os textos; se hoje pudesse ficar aqui.
por: mar